12 de agosto de 2014

Palavras são palavras...

Palavras são palavras, nada mais do que palavras. (Chico Anysio, na boca de Valfrido Canavieira, um de seus imortais personagens).

Pois é, escrevi, faz tempo, um arremedo de crônica, sobre a palavra esgargalado, cuja encontrei num dos muitos livros que li, do formidável José Saramago. Acho que foi em “O Homem Duplicado”.

Ora, imaginei, que se eu desconhecia o significado da palavra, que encontrara pela vez primeira em um texto, provavelmente alguém menos esclarecido do que eu (sei que são poucas pessoas) logicamente também estranharia.

E imaginei uma situação inusitada, de um moribundo que tinha como última vontade ser sepultado esgargalado.

Também tive que ir ao Aurélio por causa do Chico Buarque, que sacramentou um glabro, num de seus romances.

O conhecimento e uso de algumas palavras depende muito da faixa etária, do ambiente social e até da época em que vive ou viveu o cidadão.

O coloquial deixa à margem, sem uso, até palavras bonitas, como biltre. Menos pelo significado, mas pela pronúncia.

Vou narrar dois episódios verídicos, nos quais o desconhecimento de palavras provocou situações críticas, ridículas e engraçadas.


A primeira ocorreu nos anos 1950, quando eu estava numa sala, nas dependências da Aeronáutica, fazendo exames médicos, pois havia sido aprovado no exame de ingresso na Escola Preparatória de Cadetes-do-Ar.

Estávamos muitos rapazes, em seus 15 ou 16 anos de idade, concluintes do curso ginasial, nível obrigatório para o concurso.

Deveríamos preencher um questionário, que iria nortear toda a sequência dos muitos exames médicos pelos quais passaríamos. 

Abrindo um parêntesis, num deles  fui reprovado, pois sou portador de discromatopsia.

Voltando a narrativa, as perguntas eram abrangentes e iam desde se ficávamos resfriados com frequência, se tínhamos dores de cabeça, até chegar a uma que foi a origem da saia justa em que ficou um dos meninos (éramos todos).

A pergunta era: costuma se masturbar? Lembrem que estávamos nos anos 1950, e entre os candidatos aprovados, acho que 50 ao todo, havia gente de todo o pais e de todas as classes sociais e econômicas.

Um deles, diante da pergunta que continha uma palavra desconhecida, levanta o dedo e pergunta para o monitor que distribuíra os questionários e acompanhava o preenchimento: “por favor, o  que é masturbar?

Aconteceu isto mesmo que você está pensando, gargalhada. Mas se você pensa que terminou a “saia justa”, precisa saber que dada a explicação, da forma mais bizarra, no sentido extravagante, um outro rapaz sentado bem na primeira fileira de cadeiras tipo escolar, fez uma exclamação denunciadora de sua ignorância: Ah, é isso?

Pois é, eram no mínimo dois os rapazes que pretendiam ser oficiais da aeronáutica e nunca tinham ouvido ou empregado a palavra masturbação.

Não cabe aqui e agora tentar descobrir com que nome  conheciam o ato correspondente. Mas é fácil deduzir.

A outra palavra que causou dúvidas e incertezas era o tema de uma composição, da prova de língua portuguesa, para estudantes da terceira série do curso científico. Portanto gente um pouco mais idosa do que os calouros da aeronáutica.

O tema da redação era: Eutanásia.

Caramba! Muitos dos alunos precisaram ser informados do que vinha a ser. Isso já foi nos anos 1960.

É a tal coisa, muita palavras estão fora de nosso vocabulário corriqueiro, por várias razões, até pela falta de oportunidade de escrevê-las ou verbaliza-las.

Daí que ler, ler muito, é o melhor remédio, como rir.

12 comentários:

Jorge Carrano disse...

O exame médico para ingresso na escola de cadetes da aeronáutica era muito rigoroso mesmo.
Fato interessante é que 3 dos alunos do comandante Paulo Pessoa foram reprovados em exames médicos daquele ano (1955). E eramos muito amigos mesmo: eu, Roberto Marconi Durão, e Eurico Cesar Rodrigues da Costa. E mais interessante ainda, eu pelos olhos (discromatopsia), o Eurico pelos ouvidos (pouca audição, num dos ouvidos) e O Roberto Durão pelo nariz (desvio do septo, membrana cartilaginosa que separa as narinas).
Apenas o caso do Durão poderia ser corrigido com cirurgia. Não lembro porque cargas d'água ele resolveu não fazer a operação.
Depois, Eurico formou-se em química, e o Roberto Durão em direito.
Agora a nota importante, não foi nenhum dos dois que desconhecia a palavra masturbação (rsrsrs).

Riva disse...

Não tenho dúvida de que ler, ler, e ler é o melhor remédio, mas brasileiro não lê, nem bula nem manual de qualquer equipamento.

Outro dia li os números de venda de livros e de quantidade de livrarias no Brasil, comparados com alguns países, inclusive com nossos hermanos ..... um massacre cultural !!

Mas eu, particularmente,não concordo com a inserção de palavras específicas e não coloquiais em textos de advogados, médicos, engenheiros, etc. Pior que muitas vezes são em outra língua ... inglês ou latim. A não ser que não se encontre similar em nosso vocabulário. Não vejo nenhuma necessidade ou utilidade dessa prática.

Em minhas 2 ou 3 últimas atividades profissionais, convivi com um tsunami de termos ingleses em reuniões e apresentações, completamente sem necessidade, talvez só por vaidade mesmo. O mais ridículo é quando o cara usa o termo e não sabe pronunciar corretamente.

Mas ao mesmo tempo, parece que a geração atual está assimilando aos poucos essa prática, convivendo demais com internet.

Voltando ao português, acho que devemos simplificar sempre ... nossa língua já é suficientemente difícil.

Jorge Carrano disse...

AVISO AOS NAVEGANTES
No programa oficial chamado "A HORA DO BRASIL", que atualmente se chama "A VOZ DO BRASIL", havia um quadro intitulado "Aviso aos Navegantes".
Nele eram dadas informações sobre boias e faróis suas localizações e se estavam estes operantes ou não. E tratavam de ventos e marés.
O meu aviso aos navegantes é para alertar sobre a instabilidade do acesso à internet, o que poderá me levar até ao cancelamento de contrato com a provedora.
Como só estou com acesso desde o escritório e poderei ficar silente por algum tempo.
Obrigado pela compreensão.

Carlos Frederico disse...

Não tem provedora boa.
Não tem telefonia celular boa.
Não tem TV por assinatura boa.
Não tem praticamente nada bom no Brasil.

Se seu problema é qualidade da linha (ou seja, caiu junto telefone e Velox), pode ser alguma obra próxima que estragou o feixe de cabos.
Se é só o modem e seu Velox depende de roteador externo (ou se você liga direto o computador no modem), mesmo que a Oi não o tenha, você consegue um igual baratinho numa dessas muvucas de informática do centro, tem algumas perto de seu escritório.
Se seu modem Oi-Velox tem também wi-fi embutido, bom, aí eu recomendo que espere a Oi mesmo porque é mais de 100 pilas.
Meu guru era o George Alfradique, faz tempo que não converso com ele. Costumava resolver tudo. Desde que não seja a linha...
=8-/
Freddy

Jorge Carrano disse...

Obrigado Freddy, pelas dicas.
Sobre suas frases iniciais o que tenho a dizer é que é por essas e outras que pudesse eu e estaria bem longe deste pais maravilhoso onde nada funciona. A começar pelos governos que são incompetentes e corruptos.
E ai as empresas fazem o que bem entendem, descumprindo contratos e desrespeitando os consumidores.
As agências reguladoras são cabides de emprego.
Bem, ontem a assistência técnica deu um prazo de 48 horas para eu receber a visita de um técnico.
Estou aguardando.
Aqui no escritório o provedor é a Predialnet que, bem ou mal, atende melhor do que a Oi e a GVT.

Jorge Carrano disse...

Cortesia do Paulo Bouhid, via e-mail:
"Sem nenhum tropeço posso escrever o que quiser sem ele, pois rico é o português e fértil em recursos diversos, tudo isso permitindo mesmo o que de início, e somente de início, se pode ter como impossível.
Pode dizer-se tudo, com sentido completo, como se isso fosse mero ovo de Colombo, desde que se tente.
Sem se inibir, pode muito bem o leitor empreender este belo exercício dentro do nosso fecundo e peregrino dizer português, puríssimo instrumento dos nossos melhores escritores e mestres do verso, instrumento que nos legou monumentos dignos de eterno e honroso reconhecimento.
Trechos difíceis resolvem-se com sinónimos.
Observe-se bem: é certo que, em se querendo, esgrime-se sem limites com este divertimento instrutivo.
Brinque-se mesmo com tudo.
É um belíssimo desporto do intelecto, pois escrevemos o que quisermos sem o "E" ou sem o "I" ou sem o "O" e, conforme meu exclusivo desejo, escolherei outro, discorrendo livremente, por exemplo sem o "P", "R" ou "F", o que quiser escolher. Podemos, em corrente estilo, repetir um som sempre ou mesmo escrever sem verbos.
Com o concurso de termos escolhidos, isso pode ir longe, escrevendo-se todo um discurso, um conto ou um livro inteiro sobre o que o leitor melhor preferir.
Porém, mesmo sem o uso pernóstico dos termos difíceis, muito e muito se prossegue do mesmo modo, discorrendo sobre o objeto escolhido, sem impedimentos.
Deploro sempre ver moços deste século inconscientemente esquecerem e oprimirem hoje o nosso português, culto e belo, querendo substituí-lo pelo inglês. Por quê?
Cultivemos o nosso polifônico e fecundo verbo, doce e melodioso, porém incisivo e forte, messe de luminosos estilos, voz de muitos povos, escrínio de belos versos e de imenso porte, ninho de cisnes e de condores.
Honremos o que é nosso, oh moços estudiosos, escritores e professores!
Honremos o digníssimo modo de dizer que nos legou um povo humilde, porém viril e cheio de sentimentos estéticos, púgil, de heróis e de nobres descobridores de mundos novos!"

Riva disse...

Um dos meus filhos, o torcedor Daquele Time do Mal (que tem jogadores assassinos, estelionatários, envolvidos com milícias, agressores de mulheres, etc, etc), mora na Europa e está por aqui. Veio ver a Copa e finalizar sua tese de mestrado. Retorna em breve, dessa vez para a Alemanha.
Por estar há 3 anos fora do Brasil e vivendo em cidades com muita qualidade de vida - Cambridge, Londres, Estocolmo e Ljubljana, está sentindo demais a péssima qualidade dos nossos serviços, aqueles que o atingem diretamente - bancos, internet, telefonia, transporte.Realmente, estamos sendo massacrados pelo péssimo serviço e pelas altas taxas cobradas.
BRASIL BANDIDO !

Jorge Carrano disse...

No texto do comentário acima deste do Riva, há uma curiosidade que nem todos observaram ou, se notaram, não se manifestaram a respeito.
Observem que nenhuma palavra tem a letra "a".

Jorge Carrano disse...

ATENÇÃO:
Sobre o problema de acesso à internet, relatado em comentários, informo que a solução foi a troca do modem, feito pela própria operadora.
Tudo moralizado, por enquanto. Até quando só Deus sabe, ou não. Ele não deve se meter nestas minudências (rsrsrs).

Carlos Frederico disse...

Para mim bastaram 7 meses em Munique. Ao voltar para o Brasil, já havia perdido a inocência pois estivera em contato diário com o cotidiano de grandes cidades europeias, numa idade em que ainda estava formando conceitos.

É dessa fase minha emblemática frase: "depois de conhecer a Holanda passei a ter vergonha de ser brasileiro".
E nada até agora me fez mudar de opinião. O Brasil é uma m...
Fosse eu um sujeito mais atirado, já teria caído fora faz tempo. Agora, não dá mais. Apenas lamento. Mas dou a maior força pra quem quiser se aventurar fora daqui.
=8-/
Freddy

Riva disse...

Caramba !! Como vc descobriu que não tinha letra A ?
Impressionante as 2 coisas !!

Carlos Frederico disse...

Se eu tivesse prestado mais atenção, reconheceria o texto. Já rolou faz tempo na Internet. Não me pergunte o autor, não vou lembrar.
<:o)
Freddy